[The Flower Shop] Diário #11
Publicado por Fábio M. Barreto em Apr 30, 2012 em Blog, Curta-Metragem, The Flower Shop | Comente!Esse é um diário de produção do filme The Flower Shop, logo, vai conter um monte de detalhes sobre a realização de um curta-metragem, impressões e anotações pontuais que podem, ou não, interessar a entusiastas pela Sétima Arte. Acima de tudo, vou escrever para manter o trabalho organizado e poder analisar tudo quando estiver internado num SPA para me recobrar do trabalho hercúleo que vem por aí. Se seu sonho é fazer um filme, espero que meus obstáculos e soluções possam ajudar no árduo caminho que enfrentamos.
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Muita coisa aconteceu nas últimas semanas, mas como alguns de vocês sabem, fiquei doente e deixei o computador de lado. Ou pelo menos tentei. De qualquer maneira, The Flower Shop evoluiu bastante com boas e más notícias. Hoje vou falar sobre um pouco do processo de organização, custos de equipe, escolha de câmera e mostrar os primeiros testes de cor feitos na locação dos nossos segmentos da Segunda Guerra Mundial. \o/
Nada melhor que tirar a má notícia da frente logo: o convite feito a um ator e diretor da Globo para uma ponta no filme foi recusado. Tudo bem, bola para a frente. Já estou pensando em outro nome de peso para chamar. Não se pode ganhar todas, não é mesmo? Mas o contato valeu a pena e abriu possibilidades para coisas no futuro. O importante é aceitar a negativa com profissionalismo e tocar o barco.
Logo, entramos no próximo tópico, Production Board. Aliás, vou usar esses termos em inglês pelo simples fato de não fazer ideia de como alguns deles são chamados aí. Nunca estudei cinema no Brasil e o vocabulário vem com o ambiente onde você está. A Production Board é basicamente uma tabela – em excel ou organizada num quadro na parede do escritório central – com todas as informações do calendário, cenas a serem filmadas, locações, descrições curtas e os horários. Pensando em sua função, pode ser que o nome em português seja Tabela de Produção ou algo assim.
O jeito de fazer é bem simples. Cada linha da planilha inclui os seguintes dados:
Descrição da cena, personagens envolvidos, elementos extras (animais, carros, sfx, musica, extras, e etc) descrição da locação, informação sobre Dia ou Noite, onde a cena está localizada no AD Breakdown (que expliquei no texto anterior) e a numeração das cenas. Veja a foto abaixo como exemplo.

Fazer essa tabela ajuda um bocado a organizar as filmagens, especialmente para tentar blocar a presença de um mesmo núcleo de atores ou maximizar o uso de determinada locação. Basicamente, o ideal é juntar todas as cenas externas e cabíveis num mesmo lugar ou tentar filmar todas as sequências de um determinado ator no mesmo dia, assim você só paga uma diária de salário. Tudo é feito para economizar, simples assim. Mesmo com preço mais acessível que no Brasil, por exemplo, filmar em LA suga seu orçamento com velocidade incrível. Essa é a razão pela qual filmaremos em apenas 4 dias: dois para externas e externas/internas, ou INT. e INT/EXT, e dois dias para as internas, possivelmente com mais um dia de Segunda Unidade (ruas, prédios, ambientes, cenários relacionados, cenas envolvendo apenas extras ou dublês, etc) para as transições.
Além de ajudar a visualizar a carga de trabalho, a Production Board permite que toda a equipe de bastidores tenha acesso às mesmas informações e saiba o que fazer, ou seja, ninguém vai chamar atores desnecessários, ou se dar ao trabalho de levar algum equipamento ou elemento extra que só será usado no dia seguinte, por exemplo. Isso sem contar o fato de impedir erros de logística e tempo útil, como a tabela usa um sistema de cores, fica fácil ver que um dia está carregado demais e que será impossível – ou muito caro – filmar todas aquelas cenas sem ter que pagar hora extra de locação e de equipe. Já se filma por pelo menos 12 horas mesmo, daí para a frente as chances de acidentes, menor qualidade e desatenção (que resulta em retrabalho) são gigantescas, mesmo em sets profissionais.
É preciso pensar na equipe e no pique do pessoal. Por isso, o ideal é começar a filmar as cenas externas ou as noturnas logo de cara, pois são as mais trabalhosas e ainda pegam o time cheio de energia. Outro fator importante é que, no caso de problemas, você sempre pode reagendar uma refilmagem para depois das gravações internas pagando apenas algumas horas extras. Se a produção optar por fazer tudo isso no final, além de pegar o time desgastado, ainda vai pagar um dia inteiro enquanto todo mundo espera a noite chegar, ou seja, dobra o valor. Pagamento do dia de trabalho + pagamento extra pelas filmagens madrugada a dentro. Como disse, tudo é questão de reduzir custos.
The Flower Shop vai ter um time internacional bem bacana e cheio de profissionais. Estamos estimando uma equipe de pelo menos 15 membros, o que vai arrancar algo em torno de $4.500 do orçamento total. E estou falando de pagamento mínimo! A maior atenção será dada às posições principais: Diretor de Fotografia (Cinematographer), Eletricista (Gaffer), Maquinista (Key Grip) e Set Designer (vamos construir um campo de concentração… ou parte dele! :p). Abaixo disso o pessoal vai receber mais, mas ainda assim, haverá pagamento. É importante demonstrar seriedade e não ficar dependendo da boa vontade do cara aparecer ou não. Se você precisa dessas pessoas, garanta seu comprometimento e isso se faz com dinheiro. E também faz sentido na hora que você exigir uma postura séria e a qualidade do trabalho.
Quer fazer mesmo assim e não tem dinheiro? Bom, pague pelo menos a gasolina, dê um bom almoço e evite que sua equipe pense estar “pagando para trabalhar”. É o mínimo que se pode oferecer. Você sente a reação das pessoas – sério! – quando oferece a condição certa (mesmo que ela fuja do ideal) e isso faz a diferença quando todo mundo começa a trabalhar.
Toda essa preparação é necessária, pois as locações previstas – o backlot da Universal e o Griffith Park – vai levar outro pedação do orçamento, mas trarão o Production Valueeee (quem viu Super8 vai entender!) necessário para o visual que quero. Quando se busca esse nível de qualidade (melhor tradução que pensei para Production Value, que não seja “valor de produção”) é preciso ter certeza de que tudo vai acontecer dentro dos conformes, afinal, problemas sempre vão existir e faz parte do dia a dia. A equação de um bom filme é mais ou menos essa: história cativante + visual adequado + qualidade na execução. É o mínimo esperado e coisa que não entreguei em Filhos do Fim do Mundo, logo, lição aprendida. Agora a coisa é séria.
Tão séria que abandonei o plano de filmar com a Canon 5D e já estamos cotando a Canon C-300! Juntar essa câmera e um kit de cinelenses Zeiss vai ser uma coisa linda de morrer! Ela processa 4K, mas gera um arquivo 2K que fica bom na hora de rodar as cópias em película. ☺ Um amigo ofereceu uma RED EPIC, na faixa, mas recusei. Razão: não quero gastar uma fortuna em pós para contratar um editor com equipamento certo ou alugar uma ilha de edição. A RED pode ser linda, mas tem matado muito filme pequeno, que morre por conta do custo de pós-produção.
Com uma câmera boa assim, muitos testes são necessários e já começamos. Sábado passado, visitei a locação com meu amigo e conselheiro Tércio Garofalo, cineasta e fotógrafo brasiliense e grande parceiro em The Flower Shop, e começamos a simular algumas das tomadas com a minha 60D por uma simples razão: preciso encontrar o visual certo para as filmagens. Ou seja, quero achar as cores, a velocidade dos frames e quantidade de luz ideal para realizar minha visão. E vamos fazer isso na câmera, que significa filmar exatamente do jeito que queremos, sem ficar dependendo da correção de cor para “encontrar o visual do filme”. Por isso estou investindo tanto. Vamos fazer old school e, quer saber, vai ficar bom para caramba!
Mas os testes ainda estão no princípio. Para vocês entenderem um pouco mais desse processo, fiz um video curtinho mostrando as diferenças em tonalidade e “clima” que podem ser escolhidas para qualquer filme. Filmamos tudo na mão e sem marcar foco, então não é para julgar nada disso! hehe. Veja e deixe sua opinião!
Até a próxima!

