[The Flower Shop] Diário #12
Publicado por Fábio M. Barreto em May 21, 2012 em Blog, Curta-Metragem, The Flower Shop | 1 comentárioO clichê “nunca deixamos de aprender” é uma verdade absoluta quando se faz cinema. Cada ação tomada parece ter uma contra-partida prontinha em algum lugar no universo e ela brota na sua frente. Lembra lá no primeiro dia desse diário? Achei mesmo que poderia vir aqui todos os dias e contar um pouco do que aconteceu com The Flower Shop. Pois é, até poderia ter feito isso, mas vocês teriam fugido há muito tempo. Há momentos marcantes, claro, entretanto, a maior parte da produção consistem nas seguintes tarefas: fazer, refazer, corrigir, refazer de novo, analisar, fazer testes, mudar mais um pouco, pedir opinião, reorganizar e etc. É um ciclo maluco. Por que? Cinema é uma arte que exige controle. E controle só existe quando tudo é pensado, analisado e programado. Semana passada o Tim Burton me disse que gosta de ir filmar com uma ideia e sem depender de storyboards, bem, pode até funcionar, mas pode apostar na qualidade e preocupação da equipe dele em permitir que ele faça isso. Esse é o assunto de hoje: preparação.
Uma passagem rapidinha pelo que aconteceu até agora:
1) roteiro
2) escolher um produtor
3) storyboards
4) Tabela de Produção
5) escolher as locações (parcialmente completo)
6) começar a escolher elenco (três já selecionados)
7) planejamento de filmagem (onde a camera vai ficar)
8 ) orçamento
9) pôster conceitual
10) textos de divulgação, sinopses, etc
Agora pense que cada uma dessas tarefas já foi feita e refeita umas 5 vezes, em media. É muito ajuste, vocês não fazem ideia. Tudo isso para que as contingências sejam preparadas e tenhamos que lidar apenas com os problemas do dia das filmagens e eles vão acontecer, é inevitável. Um dos ditados de Hollywood é: o trabalho do diretor é resolver problemas, afinal, alguém tem que tomar decisões.
O bom da pré-produção é que as decisões podem ser corrigidas e o direcionamento ainda pode sofrer alterações. O pior que pode acontecer a um filme (especialmente um pequeno) é todo mundo chegar para as filmagens e as peças não estarem no lugar. Gente sem saber o que fazer, equipamento insuficiente ou “decisões do momento” são péssimas, pois não adianta ter a ideia mais genial do mundo na hora de filmar e não ter as condições de executar. Você pode ser mega criativo antes e aí batalhar para realizar essa criatividade, basicamente. Pelo menos é como eu vejo. Para que correr riscos e esperar por uma inspiração que pode não vir na hora, se posso mesclar inspiração e tentativa e erro na pós, antes de, efetivamente, gastar o dinheiro?
Vamos usar dolly track (câmera sobre trilhos, que se movimenta com fluidez) na maioria das cenas e isso requer um grande planejamento para saber onde, como e quando elas vão ser necessárias. Demora para montar e é necessário pelo menos um técnico experiente nessa ferramenta para não dar errado.
Para cobrir esse aspecto, fiz os mapas de filmagens (plot plans; acho que comentei sobre eles no capítulo anterior) e também fiz com que as datas de gravação sejam próximas para alugarmos o equipamento pelo menor tempo possível. Tudo isso faz a diferença. Imagine o cenário: você aluga o equipamento, oba! Chama sua equipe e vai filmar, fantástico! Você tem 5 horas para filmar. Aí descarrega tudo e, como diretor, alguém vai vir te perguntar “onde a gente monta?”. Se a sua resposta for “ok, vamos ver”, pode apostar que sua equipe – se for profissional – vai encarar isso como um alerta de problemas futuros. Eles estarão certos, pois você vai demorar pelo menos uma meia hora para se decidir e eles sabem que se você fizer isso mais quatro vezes ao longo do dia, você terá jogado duas horas para o alto e o filme VAI ATRASAR. Continha rápida: 2 horas decidindo, sobram 3 horas para ensaiar, montar, iluminar e, claro, filmar. Sentiu o drama?
Muita gente cai nesse erro e daí vem minha ira com quem ainda acredita naquele conceito imbecil do Glauber Rocha. Estou questionando o conceito, não o que ele fez, antes que algum radical do cinema apareça aqui. “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” inevitavelmente levam a uma MERDA NA TELA! O maior louro do Glauber foi ter feito, não necessariamente por ter feito bem. Alguém tinha que começar e o cara meteu as caras. Isso serviu lá atrás, quando o Brasil precisava de um desbravador. Agora precisamos pensar de forma profissional. E fazer por fazer, bem, não é profissional!
Outra coisa fundamental na preparação é ensaiar. Por mais que seu filme seja amador ou você não vá gastar mais do que o seu tempo, você PRECISA chamar os atores pelo menos uma vez antes das filmagens e fazer duas coisas: table read e ensaio pratico.
Table read: todo mundo senta com o roteiro e os atores lêem as suas falas, simulando, da melhor maneira possível, o estado mental do personagem. Benefícios: falas mal-escritas ou apenas esquisitas quando lidas em voz alta vão brilhar com néon cor de rosa no escuro, então você reescreve ou corta. E seus atores vão se entrosando, às vezes provocando ideias melhores e mostrando o caminho das pedras em termos de direção. Se um ator não é brincalhão e você insiste com uma piada no roteiro dele, a leitura vai te mostrar que há algo errado ou que a piada tem que ser utilizada de outra maneira.
Veja uma leitura de Forgetting Sarah Marshall:
Ensaio prático: não precisa ser no local da filmagem, se puder, sorte sua!
Faça com que os atores simulem as cenas na sua frente. Leve mais gente com você. Se funcionar com o público, você está no caminho certo, mesmo que não tenha gostado tanto. Basta alinhar seu desejo com o resultado nos outros. Isso resolve problemas de câmera e movimentação. Você vai mover a câmera ou os atores? Essa é a hora de decidir e não voltar atrás!
E agora o último passo do processo de preparação, pelo menos do aspecto da direção, é escolher alguns filmes fundamentais para a sua visão, ou seja, próximos do clima, do tema ou do tipo de história que você quer contar… e assistir esses filmes à exaustão. Já fiz minha seleção aqui: Hugo, Filhos da Esperança, Grandes Esperanças, O Abrigo e O Resgate do Soldado Ryan.
Essa etapa ajuda a ter ideias, resolver problemas, buscar inspiração para cores, ferramentas narrativas e vários outros elementos do processo. É um barato ver uma cena, dar pausa e ficar pensando: “Como eles fizeram isso? Será que dá para fazer de forma mais barata? Mesmo que você não use a referencia, o processo vai influenciar sua criatividade e técnica no futuro.
Bem, é isso. Hora de terminar o livro. Volto aqui em duas semanas e, se tudo der certo, com novidades, definições de elenco e nossa CAMPANHA DE ARRECADAÇÃO. Até!
Esse é um diário de produção do filme The Flower Shop, logo, vai conter um monte de detalhes sobre a realização de um curta-metragem, impressões e anotações pontuais que podem, ou não, interessar a entusiastas pela Sétima Arte. Acima de tudo, vou escrever para manter o trabalho organizado e poder analisar tudo quando estiver internado num SPA para me recobrar do trabalho hercúleo que vem por aí. Se seu sonho é fazer um filme, espero que meus obstáculos e soluções possam ajudar no árduo caminho que enfrentamos.
Leia todos os textos clicando aqui.


Acompanhando direto seus posts sobre a produção,e dá pra ver a realidade da produção.E tocando nesse assunto do planejamento recentemente vi um curta metragem do Jesus Orellana,é totalmente animação em computação gráfica,e o que me impressiona é que o Diretor fez SOZINHO(demorou 2 anos),eu to abestado até agora!!!
Quem quiser dar uma olhada:
http://vimeo.com/31894179
Imagina o planejamento do cara!
Abraços,e por favor continue atualizando o diário!
td de bom FLW!