[The Flower Shop] Diário #12

O clichê “nunca deixamos de aprender” é uma verdade absoluta quando se faz cinema. Cada ação tomada parece ter uma contra-partida prontinha em algum lugar no universo e ela brota na sua frente. Lembra lá no primeiro dia desse diário? Achei mesmo que poderia vir aqui todos os dias e contar um pouco do que aconteceu com The Flower Shop. Pois é, até poderia ter feito isso, mas vocês teriam fugido há muito tempo. Há momentos marcantes, claro, entretanto, a maior parte da produção consistem nas seguintes tarefas: fazer, refazer, corrigir, refazer de novo, analisar, fazer testes, mudar mais um pouco, pedir opinião, reorganizar e etc. É um ciclo maluco. Por que? Cinema é uma arte que exige controle. E controle só existe quando tudo é pensado, analisado e programado. Semana passada o Tim Burton me disse que gosta de ir filmar com uma ideia e sem depender de storyboards, bem, pode até funcionar, mas pode apostar na qualidade e preocupação da equipe dele em permitir que ele faça isso. Esse é o assunto de hoje: preparação.

Uma passagem rapidinha pelo que aconteceu até agora:

1) roteiro

2) escolher um produtor

3) storyboards

4) Tabela de Produção

5) escolher as locações (parcialmente completo)

6) começar a escolher elenco (três já selecionados)

7) planejamento de filmagem (onde a camera vai ficar)

8 ) orçamento

9) pôster conceitual

10) textos de divulgação, sinopses, etc

Agora pense que cada uma dessas tarefas já foi feita e refeita umas 5 vezes, em media. É muito ajuste, vocês não fazem ideia. Tudo isso para que as contingências sejam preparadas e tenhamos que lidar apenas com os problemas do dia das filmagens e eles vão acontecer, é inevitável. Um dos ditados de Hollywood é: o trabalho do diretor é resolver problemas, afinal, alguém tem que tomar decisões.

O bom da pré-produção é que as decisões podem ser corrigidas e o direcionamento ainda pode sofrer alterações. O pior que pode acontecer a um filme (especialmente um pequeno) é todo mundo chegar para as filmagens e as peças não estarem no lugar. Gente sem saber o que fazer, equipamento insuficiente ou “decisões do momento” são péssimas, pois não adianta ter a ideia mais genial do mundo na hora de filmar e não ter as condições de executar. Você pode ser mega criativo antes e aí batalhar para realizar essa criatividade, basicamente. Pelo menos é como eu vejo. Para que correr riscos e esperar por uma inspiração que pode não vir na hora, se posso mesclar inspiração e tentativa e erro na pós, antes de, efetivamente, gastar o dinheiro?

Vamos usar dolly track (câmera sobre trilhos, que se movimenta com fluidez) na maioria das cenas e isso requer um grande planejamento para saber onde, como e quando elas vão ser necessárias. Demora para montar e é necessário pelo menos um técnico experiente nessa ferramenta para não dar errado.

Para cobrir esse aspecto, fiz os mapas de filmagens (plot plans; acho que comentei sobre eles no capítulo anterior) e também fiz com que as datas de gravação sejam próximas para alugarmos o equipamento pelo menor tempo possível. Tudo isso faz a diferença. Imagine o cenário: você aluga o equipamento, oba! Chama sua equipe e vai filmar, fantástico! Você tem 5 horas para filmar. Aí descarrega tudo e, como diretor, alguém vai vir te perguntar “onde a gente monta?”. Se a sua resposta for “ok, vamos ver”, pode apostar que sua equipe – se for profissional – vai encarar isso como um alerta de problemas futuros. Eles estarão certos, pois você vai demorar pelo menos uma meia hora para se decidir e eles sabem que se você fizer isso mais quatro vezes ao longo do dia, você terá jogado duas horas para o alto e o filme VAI ATRASAR. Continha rápida: 2 horas decidindo, sobram 3 horas para ensaiar, montar, iluminar e, claro, filmar. Sentiu o drama?

Page 1 of 2 | Next page